Você sabia? Um LACERDA ‘herdeiro do marxismo’ virou símbolo do conservadorismo no Brasil
A trajetória surpreendente de Carlos Lacerda, que saiu da influência de Karl Marx para se tornar um dos maiores nomes da direita brasileira.
Uma Família Enraizada na História do Brasil

Carlos Lacerda não chegou à política por acaso — ele nasceu nela. Seu avô paterno, Sebastião Lacerda, foi Ministro do Supremo Tribunal Federal e Ministro dos Transportes durante o governo de Prudente de Morais, no alvorecer da República. Seu pai, Maurício de Lacerda, foi prefeito de Vassouras em duas ocasiões e uma das vozes do jornalismo e da política brasileira nas décadas de 1910 e 1920. Pelo lado materno, Carlos descende de Joaquim Monteiro Caminhoá, renomado botânico, e da aristocracia fluminense dos Werneck, família que exerceu notável influência política e econômica na região do Vale do Paraíba.
Curioso é o significado do próprio nome. Seus pais, então alinhados ao pensamento comunista, batizaram-no "Carlos Frederico" em homenagem direta a Karl Marx e Friedrich Engels — os pais do socialismo científico. A ironia da história quis que esse homenageado se tornasse, décadas depois, um dos principais líderes do conservadorismo brasileiro.
"Quem não foi comunista aos dezoito anos, não teve juventude;
quem é depois dos trinta não tem juízo."— Carlos Lacerda
O Jornalista e o Político — A Ascensão pela UDN
Em 1945, Lacerda filiou-se à União Democrática Nacional (UDN), partido que reunia a oposição liberal e conservadora ao varguismo. No ano seguinte, fundou na redação do Correio da Manhã a coluna "Na Tribuna da Imprensa", que logo se tornou um dos espaços de crítica política mais temidos do país. Em 1949, fundaria o próprio jornal, Tribuna da Imprensa, que se tornaria plataforma de suas campanhas mais célebres.
Eleito vereador do Rio de Janeiro em 1947, renunciou ao mandato já no ano seguinte, em protesto contra a redução das prerrogativas da Câmara Municipal pelo Senado. Em 1950 e 1954, elegeu-se Deputado Federal, tornando-se líder da bancada udenista e tribuno de oposição ao presidente Getúlio Vargas.
O Atentado da Rua Tonelero e a Queda de Vargas

Na noite de 5 de agosto de 1954, Carlos Lacerda foi alvo de um atentado a bala na Rua Tonelero, em Copacabana. O major da Aeronáutica Rubens Vaz, que compunha seu grupo de segurança voluntária, foi morto. Lacerda saiu com um ferimento de raspão no pé. As investigações apontaram para Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Vargas, como mandante do crime.
A indignação das Forças Armadas e da opinião pública, amplificada pelos editoriais incendiários de Lacerda na Tribuna da Imprensa, acelerou a crise política. Diante do ultimato militar, Getúlio Vargas suicidou-se no Palácio do Catete em 24 de agosto de 1954 — dezenove dias após o atentado.
Governador da Guanabara — A Grande Obra Administrativa
Em 1960, Carlos Lacerda foi eleito governador do recém-criado Estado da Guanabara — território que correspondia ao então Distrito Federal, transformado em estado após a inauguração de Brasília. Governou de 1961 a 1966, período em que seu trabalho administrativo foi elogiado pelo governo norte-americano e pelo FMI.
Seu governo promoveu obras de saneamento, transporte e habitação, enfrentando problemas crônicos da cidade do Rio de Janeiro. Ao mesmo tempo, a administração foi marcada por polêmicas remoções de favelas — sobretudo nas áreas ao redor da Lagoa Rodrigo de Freitas —, afetando dezenas de milhares de famílias.
O Sonho Presidencial e a Decepção com os Militares
Lacerda apoiou o movimento militar de abril de 1964 que depôs João Goulart, esperando que abrisse caminho para sua candidatura à Presidência da República nas eleições de 1965. A candidatura pela UDN foi homologada, mas os militares cancelaram as eleições diretas com o Ato Institucional n.º 2, em outubro de 1965. O sonho presidencial jamais se concretizaria.
A partir de então, a ruptura com o regime foi se aprofundando. Em 1966, Lacerda articulou a Frente Ampla, aliando-se a antigos adversários históricos — Juscelino Kubitschek e João Goulart, então exilados — em torno da bandeira da redemocratização. A Frente foi banida em abril de 1968.
O Fim da Carreira Política e os Últimos Anos

Em dezembro de 1968, um dia após a edição do Ato Institucional n.º 5, Lacerda foi preso. Após uma semana de greve de fome, conseguiu ser libertado. Poucos dias depois, teve seus direitos políticos suspensos por dez anos pelo regime que ele próprio havia apoiado.
Impedido de atuar na política, dedicou-se ao jornalismo e à vida intelectual. Fundou a Editora Nova Fronteira, que se tornaria uma das mais respeitadas do Brasil. Pouco antes de morrer, publicou o livro de memórias A Casa de Meu Avô (1977). Suas reminiscências foram reunidas postumamente no livro Depoimento (1978). Em 1987, suas condecorações foram restituídas post-mortem.
Carlos Lacerda faleceu no Rio de Janeiro em 21 de maio de 1977, de problemas cardíacos, aos 63 anos. Deixou avenidas, escolas e ruas com seu nome — e uma trajetória que, meio século depois, ainda divide historiadores, políticos e cidadãos.
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